O conto de fadas continua

“É desta que caem.”. Não caíram. “Agora é que é, ninguém tem sorte duas vezes.” Resposta: exibição categórica para calar os detratores. A Argentina está na final do Campeonato do Mundo 17 anos depois. Sob o olhar atento de Manu Ginobili, a equipa de Sergio Hernandez bateu a França por 80-66, num jogo surpreendentemente sem grande história: os argentinos, guiados pela luz aparentemente infinita de Luis Scola (que esteve nessa equipa argentina de 2002!), entraram com tudo, estiveram inspirados no tiro e intratáveis na defesa, construindo desde cedo uma vantagem confortável que apenas tiveram de gerir até ao final. É a quarta vitória argentina contra França em mundiais, em quatro jogos.

Quanto ao encontro, esteve longe da emoção da outra meia-final. Os argentinos, que nem eram considerados favoritos, continuaram a fazer o que têm feito ao longo da competição: jogar o seu jogo de forma descomplexada e confiante, exercendo uma brutal pressão ao portador da bola, forçando lançamentos mal posicionados e encantando no ataque com o engenho e arte herdados de Ginobili. O domínio foi tal que a máxima vantagem francesa no encontro foi de 2 pontos… os dois primeiros do jogo. Até meio do segundo período, os comandados de Vincent Collet ainda chegaram a colocar-se na frente através de um parcial de 10-2, mas foi sol de pouca dura. Um dos momentos do jogo deu-se quando Facundo Campazzo, num buzzer beater espetacular de triplo, colocou o jogo a 39-32 na ida para o descanso: é certo que uma desvantagem de 7 pontos ao intervalo seria perfeitamente recuperável, mas a linguagem corporal dos franceses indiciou desde logo que não seriam capazes de deter o adversário. Na segunda parte, a distância pontual só aumentou (andou quase sempre na casa dos 10 ou mais pontos de diferença), até que, a 3:47 do fim, Scola dá a machadada final com 2 triplos em jogadas consecutivas: 74-59 e jogo resolvido.

Começando pelos vencidos, foi uma exibição muito infeliz dos franceses. Também por muito mérito adversário, os Bleus lançaram apenas 38% de campo quando eram a equipa mais eficaz em prova (52,4%), nunca encontraram o seu ritmo no ataque e sofreram imenso nos contra ataques (13-2). Não houve, de resto, à exceção de steals e desarmes, um único indicador estatístico em que França não tivesse sido inferior. Individualmente, o maior rosto da derrota é talvez Rudy Gobert. O poste vinha de um soberbo jogo contra os Estados Unidos e hoje foi completamente anulado: 3 pontos e zero lançamentos concretizados nos primeiros três períodos. Apenas nos ressaltos esteve ao seu nível (11). Ntilikina até manteve o nível pontuador do jogo anterior (16 pontos, lançando 58,3%), mas Fournier (16 pontos, mas apenas 1/6 de triplo) e De Colo (11 pontos, apenas 5 lançamentos tentados) e Batum (3 pontos, 16,7% de triplo) estiveram muito abaixo do que podem e sabem.

Do lado argentino, impressionou a confiança, as chamadas “ganas”, quer no ataque, quer na defesa. Parecia que, sempre que França tentava aproximar-se, se seguia uma resposta rápida e eficaz dos sul americanos. Individualmente, os destaques do costume. Luis Scola – que já tinha um duplo-duplo ao intervalo – acabou com 28 pontos, 13 ressaltos, 47,1% de campo e 75% de triplo! Se a Argentina vencer a final, Scola tem MVP estampado na cara. Campazzo fez mais um bom jogo, com 12 pontos, 6 assistências e uma autêntica carraça a defender, Laprovíttola deu o contributo habitual vindo do banco, Deck fez os seus números (13 pontos) e fez uso da sua envergadura na defesa, Vildoza apareceu com 10 pontos e até deu para Garino estar desinspirado (0 pontos).

A Argentina irá agora defrontar a Espanha na grande final de domingo, num jogo em que, mais uma vez, não serão favoritos – recorde-se que, antes de começar a prova, as casas de apostas davam uma probabilidade de 1 para 15 para um título argentino. Porém, com este estado de graça e momento de Scola, o céu é o limite. Pela terceira vez, a Argentina atinge a final do Mundial. Na primeira, venceu em casa, em 1950, na segunda, saiu derrotada pela Jugoslávia de Peja Stojakovic, em 2002. Já a França tentará chegar ao bronze frente à Austrália, num rematch da segunda fase de grupos, em que os boomers saíram vencedores.

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