Dez, dez, dez: Russell Westbrook e uma carreira que vai muito além dos números

Russell Westbrook anunciou na passada quarta-feira a sua retirada da NBA, após 18 temporadas na liga e um impacto que o consolidou como um dos melhores da sua geração. O ‘Senhor Triplo-Duplo’ abandona a associação como o detentor máximo desta estatística, assim como um prémio de MVP, nove seleções de All-NBA e um lugar no Top 75 de sempre da NBA.

Início de carreira e ascensão na NBA

O base chegou à NBA com um perfil algo distinto do jogador que se viria a tornar. Proveniente da prestigiada UCLA (Universidade da Califórnia), Russ já impressionava pela sua postura “elétrica” dentro da quadra, porém era dado como um especialista defensivo, que terminou o seu segundo ano universitário na Pac-10 All Defensive Team, assim como na melhor equipa da conferência. A capacidade de liderança era já evidente, tendo sido a principal figura (a par de Kevin Love) de uma ida à final four da NCAA.

As características peculiares de Westbrook chamaram à atenção dos Seattle Supersonics, que poucas semanas depois de tornariam nos Oklahoma City Thunder. A franquia, na altura com um jovem Sam Presti ao comando, surpreendeu vários analistas e selecionou o base na quarta posição do draft de 2008, onde ainda fez uma “colheita” proveitosa ao selecionar Serge Ibaka na 24ª escolha. O perfil atlético do ‘Brodie’ agradou a Presti, que juntava assim um base possante e com características defensivas a Kevin Durant.

A temporada 2008/2009 apresentava assim uma nova equipa na NBA com um núcleo jovem e promissor – os Oklahoma City Thunder. Westbrook começou a temporada a sair no banco mas rapidamente foi conquistando a titularidade no conjunto que terminou a temporada com 23 vitórias e 59 derrotas, um registo normal para uma equipa em reconstrução. Russ anotou o seu primeiro triplo-duplo da carreira a 9 de março, numa vitória frente aos Dallas Mavericks, anotando 17 pontos, 10 ressaltos e 10 assistências.

O ano seguinte foi o ano de afirmação dos Thunder e de uma das duplas mais inesquecíveis dos últimos anos da liga: Kevin Durant e Westbrook. A companhia, ambos All-Star e All-NBA, elevou o registo de OKC a 50 vitórias e uma primeira viagem aos playoffs, onde caíram perante os campeões LA Lakers, de Kobe Bryant. O crescimento da equipa era evidente e em 2010-11 alcançaram as Finais de Conferência, onde voltaram a cair perante os campeões, desta feita os inéditos Mavericks, liderados por Dirk Nowitzki.

A temporada 2011-12 foi o auge desta equipa de Oklahoma, que já contava também com James Harden nas suas fileiras. Apesar da temporada comprimida devido ao lockout, os Thunder terminaram 47-19 e Westbrook atingia os 23 pontos por jogo (5º melhor marcador da liga nesse ano). Nos playoffs, a tríplice realizou uma campanha memorável até às finais da NBA, com momentos inesquecíveis. No jogo 4 das finais, frente aos “novos” Miami Heat de Lebron James, Westbrook anotou uma exibição de 43 pontos, 7 ressaltos e 5 assistências, com uma eficácia de campo a rondar os 63%. Apesar de ser incontestavelmente um dos jogos da sua carreira, os Heat acabaram por vencer e manter-se embalados para uma vitória por 4-1 nas finais. Foi o mais próximo que Westbrook esteve de um título na sua carreira.

O desastre de 2015-16 e um novo capítulo para Westbrook

Nas temporadas seguintes os Thunder continuavam a sua afirmação na elite da NBA, com registos impressionantes na época regular e boas campanhas nos playoffs, faltando sempre algo para alcançar o tão desejado título, com lesões a afetar a trajetória na pós temporada. Em 2015-16, os OKC voltavam às finais de conferência com uma campanha invejável, ao eliminar os San Antonio Spurs (67-15 na fase regular) e os Dallas Mavericks. Já sem Harden, Westbrook e Durant tinham pela frente os campeões em título – os Golden State Warriors de Steph Curry que tinham registado 73 vitórias na temporada regular.

Embalados pela excelente campanha nos playoffs, os Thunder abriram uma vantagem surpreendente de 3-1 perante Golden State, com exibições fulminantes de Westbrook, incluindo um triplo-duplo de 36 pontos no triunfo do 4º jogo. No entanto, os Warriors operaram uma dramática reviravolta na série, com uma performance histórica de Klay Thompson no jogo 6 (recorde de triplos em jogos de playoff) e uma cambalhota na série. Os Thunder caíram com estrondo numa derrota por 4-3, que viria a tornar-se um pesadelo maior para os adeptos algumas semanas depois.

No verão de 2016, Kevin Durant trocou os Oklahoma City Thunder precisamente pelos Golden State Warriors, numa das transferências mais marcantes da história da NBA e que chocou por completo a liga. Naquilo que foi visto como uma traição pela comunidade de fãs, também a relação pessoal entre KD e Westbrook saiu afetada e o base era agora o único jogador restante de uma Era que terminava sem sucesso.

Westbrook entrou em 2016-17 com uma mentalidade de vingança, renovando ainda por mais 3 anos com os Thunder antes do começo da época e com a promessa que seria o rosto de um novo capítulo na franquia – assumindo a equipa sozinho e com o objetivo de demonstrar que conseguiria fazer tudo sozinho. Essa temporada foi a obra-prima da carreira de Russell Westbrook: 31 pontos, 10 ressaltos e 10 assistências por jogo – uma média de triplo-duplo pela primeira vez em 55 anos na liga e registando esta estatística em 42 jogos (!), outro recorde na história da NBA. Um dos momentos mais icónicos dessa temporada foi a vitória em Denver em que se tornou no jogador mais triplos-duplos numa época – com uma exibição de 50 pontos e um game-winner icónico.

Venceu o prémio de MVP, naquela que foi uma temporada muito além dos números e tornando-se como uma das figuras de culto da liga pela sua mentalidade após a “traição” de Durant. A raça, paixão e entrega que deixava na quadra era capaz de conquistar qualquer adepto e inspirou uma geração.

Esta temporada fez com que Sam Presti procurasse mais ajuda para Westbrook nesta nova fase da sua carreira. Os Thunder adquiriram Paul George e Carmelo Anthony, naquele que seria o novo trio da equipa, com a promessa clara que o “dono” continuaria a ser “Russ”. O jogador voltou a fazer uma época de alto nível, conseguindo a média de triplo-duplo com 20 ressaltos no último jogo da temporada, porém uma eliminação contra os Jazz na 1ª ronda ditou o fim precoce da temporada da equipa.

A última temporada de Westbrook em OKC foi 2018-19, em que voltou a conseguir a média de triplo-duplo, numa equipa que era cada mais liderada por Paul George. O lançamento do “meio da rua” de Damian Lillard no jogo 5 da 1ª ronda foi como um ponto final nos Thunder de Westbrook, que ainda viu Paul George sair para os Clippers no verão quente de 2019, antes de ser trocado para os Rockets e se juntar a James Harden. Foi o ponto final numa ligação de 11 temporadas em Oklahoma e onde saiu como líder em praticamente todas as principais estatísticas da organização.

Pós-Oklahoma: Um novo Westbrook que se foi recriando

Em Houston, Westbrook encontrava também a difícil missão de levar uma franquia “amaldiçoada” a um título, algo que Harden já tentava há várias temporadas. Apesar da curta passagem de apenas uma época, ficaram alguns momentos e um marco estatístico notável pelo “Small-ball” adotado pelo técnico dos texanos, que favorecia bastante os números ofensivos de Westbrook, permitindo mais ataques junto ao cesto. O percurso terminou na bolha de Orlando em plena pandemia, com uma lesão que condicionou o rendimento do jogador e uma derrota por 4-1 nas finais de conferência frente aos campeões, os LA Lakers.

Westbrook foi novamente trocado no verão, desta feita para os Washington Wizards, onde viria a passar também apenas uma temporada. A passagem pela capital fica marcada pela noite de 10 de maio de 2021, em que se tornou no recordista absoluta de triplos-duplos na história da liga, batendo os 181 de Oscar Robertson. O impacto de Russ na equipa foi positivo, conseguindo uma reviravolta na temporada e uma classificação para os playoffs, mas o verão tinha outros planos.

Os Los Angeles Lakers, de Lebron e Anthony Davis, trocaram pelo experiente base, naquele que era um regresso emocionante à Califórnia e uma equipa que prometia bastante aos olhos dos adeptos. Nem tudo como correu como esperado e rapidamente se percebeu que o estilo de Westbrook não combinava com a abordagem em jogo de Lebron James – sem a bola nas mãos, as fragilidades no jogo de Russ eram expostas. A passagem pelos Lakers ficou marcada por lançamentos inconsistentes e tomadas de decisão duvidosas, em que o próprio Westbrook também serviu como “bode expiatório” para um sistema que estava condenado a uma renovação.

Nesta fase da carreira, com 33 anos e uma experiência negativa nos Lakers, chegara a hora de se recriar para continuar a ter um lugar na liga. A capacidade atlética não era a mesma de outros tempos, mas continuava a ter um conhecimento do jogo ao alcance de poucos e poderia mostrar-se impactante: foi isso que fez nos LA Clippers. Confrontado com situações complicadas, continuou a vestir o papel de herói em várias situações, como os playoffs de 2023, sem Kawhi e Paul George. Na chegada de Harden ao plantel em 2024, renovou com contrato mínimo e pediu para ser rebaixado ao banco, sacrificando o seu ego pelo melhor da equipa.

Seguiram-se passagens pelos Denver Nuggets, onde combinou forças com outro “monstro” dos triplo-duplos – Nikola Jokic – e mais recentemente, nos Sacramento Kings, onde foi ainda coletando alguns momentos e estatísticas que avolumaram os seus recordes. Westbrook terminou a carreira com 209 triplo-duplos e como o único jogador na história da NBA, a par de Lebron James, a ter um registo de 25.000 pontos e 10.000 assistências.

A 12 de Agosto de 2026, Russell Westbrook anunciou o final da sua carreira, aos 37 anos. A mensagem foi clara, “às vezes nem sequer sabemos quando já assistimos ao final”. O “Sr. Triplo-Duplo” retirou-se assim ao final de 18 temporadas e com um conjunto de distinções invejáveis: 1 MVP, 9 seleções All Star, 9 seleções All-NBA, 2x MVP All Star Game e 1 medalha de ouro olímpica. Ficou – claro está- a faltar o ambicionado anel de campeão da NBA, juntando-se assim a outros nomes incontornáveis da liga que nunca conseguiram erguer o troféu Larry O´Brien.

Na memória dos adeptos fica um jogador eletrizante, com uma raça pura e um amor ao jogo que exprimia da melhor forma dentro da quadra – e numa altura em que se fala tanto de “gestão de esforço”, nunca se recusou a jogar e a fazer o que podia pelas suas equipas. Apesar de não conquistar nenhum título, Westbrook alcançou uma imortalidade estatística no topo da NBA e deixa um legado inigualável na história da NBA e do desporto.

Vasco Oliveira

Licenciado em Ciências da Comunicação com o sonho de um dia poder trabalhar no jornalismo desportivo. @vascoliveira8 no Twitter

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