História contra a corrente: Como os Spurs ainda podem dar a volta às finais

Os San Antonio Spurs perderam ontem frente aos New York Knicks por 107-106, naquele que foi um dos jogos mais emocionantes nas finais da NBA em muito tempo. Os texanos estiveram a vencer por 29 pontos no início da segunda parte, porém o espírito nova-iorquino falou mais alto. Num momento de grande desilusão para Wembanyama e companhia, como podem os Spurs ainda sonhar em voltar à série?

As mudanças que podem guiar os Spurs a uma reviravolta histórica

A equipa de San Antonio perdeu o jogo 4 de forma algo caricata, com erros consecutivos, lances livres falhados e decisões questionáveis de alguns jogadores em momentos cruciais da partida, durante os últimos minutos. No entanto, os Spurs sabem a fórmula para dominar os Knicks, têm-na aplicado em todos os jogos.

Apesar do resultado atual (3-1) na série, o roteiro destas finais parece quase repetido jogo a jogo: uma entrada fulminante dos Spurs (que tiveram sempre lideranças acima dos 10 pontos em todos os jogos); uma reação madura dos Knicks a voltar a entrar no jogo e os erros dos texanos nos períodos mais importantes da partida – como o turnover de Wembanyama no jogo 2 ou a decisão questionável de DeAaron Fox em lançar nos derradeiros segundos do jogo 4, quando optar pelo drible e sofrer falta teria sido a decisão mais inteligente.

Os Spurs têm sido vítimas da sua própria falta de maturidade e de uns New York Knicks muito combativos e com outra experiência nos playoffs, porém não se pode dizer que a equipa não detêm a fórmula para vencer o conjunto de Nova Iorque. Na noite de ontem a equipa de San Antonio realizou uma das melhores primeiras partes na história das finais da NBA, com 14 triplos convertidos (um recorde absoluto) e um domínio inexplicável que causou ainda mais dúvidas no que se desenrolou nos 24 minutos seguintes. O que pode ser melhorado se os Spurs quiserem voltar à série e ser a segunda equipa a virar um 3-1 numas finais da NBA?

  1. A gestão de minutos de DeAaron Fox e Dylan Haper

Tem sido apontado como um dos principais “culpados” pelos desaires dos Spurs nas finais da NBA. Apesar do importante lançamento que garantiu a vitória no jogo 3, o base de 28 anos não tem estado à altura do esperado durante não só as finais, mas todos os playoffs. Fox é o jogador mais experiente e mais bem pago da equipa dos Spurs, tendo sido trocado em 2025 como “a fonte de experiência” que poderia elevar o jovem plantel a outro nível, mas a verdade é que tem visto jogadores com menos experiência, como Dylan Harper ou Stephon Castle serem mais decisivos e consistentes.

Além dos números fracos em termos de lançamento (21/55 nas finais), o jogador tem 13 turnovers durante a série e tomado algumas decisões questionáveis, como o lançamento na noite de ontem. Em contrapartida, os Spurs deviam assegurar que Dylan Harper, rookie de 20 anos, some mais minutos durante os jogos e esteja presente nos momentos fulcrais do jogo. Na noite passada, Harper terminou com 21 pontos (8/12FG), porém a sua última tentativa de lançamento ocorreu quando faltavam 10 minutos para se jogar no último quarto e os Spurs ainda lideravam. Apesar de estar no seu primeiro ano na NBA, Harper tem demonstrado que será o futuro base titular da equipa de San Antonio e tem de estar presente nos momentos mais importantes.

2. Contornar a fisicalidade dos Knicks

A primeira parte do jogo da última madrugada comprovou qual o melhor “método” que os Spurs podem operar para vencer esta série – o jogo exterior. Os 14 triplos marcados na primeira parte falam por si e os texanos venciam por 76-49 ao intervalo naquele que parecia um jogo decidido. A eficácia do lançamento é um fator que depende sempre do momento (e os 3 triplos convertidos na segunda parte comprovam-no), porém a equipa terá de conseguir contornar o poderio físico do interior dos Knicks, com jogadores como Karl Anthony-Towns, Mitchell Robinson, Josh Hart ou OG Anunoby a trabalharem como excelentes defensores.

A ausência de Towns durante o primeiro período do jogo da noite passada (acumulou 2 faltas muito cedo no jogo) foi um fator decisivo para o bom começo dos Spurs e é um reflexo de como a equipa pode ganhar vantagem. Durante o segundo tempo, foi claro o poderio dos Knicks dentro do “garrafão” para conseguirem ressaltos e travar iniciativas ofensivas dos Spurs no ataque ao cesto.

3. As tomadas de decisão de Victor Wembanyama

O gigante francês não pode ficar de fora das críticas aos desaires dos Spurs nestas finais. Apesar de serem os primeiros playoffs da carreira e já ter atingido excelentes resultados com uma inesperada chegada às finais, Wembanyama tem também tomado decisões que resultam da ingenuidade e inexperiência em certo tipo de situações. Aqui não se fala apenas dos turnovers evidentes, com o do segundo jogo ou dos dois lances livres falhados nos últimos minutos da partida de ontem, mas sim da sua postura em campo em vários momentos.

Victor Wembanyama tem 2,24 metros e já todos conhecem a sua capacidade em ser um jogador com características polivalentes dentro da quadra, porém o próprio jogador tem de reconhecer os contextos em que deve adotar cada uma destas características. O jogador converteu apenas 8 triplos em 27 tentativas nestas finais e em vários momentos do jogo assume uma postura de lançador quando o que se exige é uma maior presença junto ao aro, que já deu os seus sinais de sucesso no jogo 3.

Tirando os lançamentos de três pontos, Wembanyama tem uma eficácia de 50% em lançamentos de campo, contando com 29 lançamentos convertidos em 58 tentativas – muito melhor que os seus 37/85 em termos gerais. A resposta está aqui. Quando os Knicks dominam no garrafão vencem os jogos e um jogador de 2,24 metros não pode reduzir-se apenas a tentar lançamentos de três pontos, especialmente quando são poucos os da sua equipa que podem impor-se no interior (apenas Kornet ou Keldon Johnson podem tentar travar a combatividade de KAT, Robinson ou Hart).

Será ainda possível?

A NBA é feita de momentos e a verdade é que estas finais têm sido prova disso, com jogos de alto nível a serem sempre decididos “taco a taco” nos últimos minutos e erros que custam caro. Os Spurs poderiam ontem ter empatado a série 2-2 e ter recuperado o fator casa e estão agora numa posição complicada para garantir o sexto título da sua história.

Estes são os principais ajustes que a equipa terá de operar para tentar fazer história e juntar-se aos Cavaliers de 2016 como os únicos a conseguir uma “remontada” depois de uma desvantagem por 3-1. Neste momento poderá já ser tarde, mas enquanto existir jogo tudo é possível.

Vasco Oliveira

Licenciado em Ciências da Comunicação com o sonho de um dia poder trabalhar no jornalismo desportivo. @vascoliveira8 no Twitter

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