EXCLUSIVO NBAPORTUGAL: Miguel Minhava: “Acho que estamos a formar pouco”
Miguel Minhava, atual treinador sub-18 do Benfica Basquetebol e ex-MVP da LPB, concedeu uma entrevista à NBAPORTUGAL, conduzida por Daniel Pimpão, onde revelou as suas preocupações com o estado atual da formação em Portugal e entre outros tópicos sobre a sua ilustre carreira.

Ex-jogador da seleção nacional, 4 vezes campeão da LPB, 2 vezes vencedor da taça da liga, 3 vezes campeão da supertaça nacional e MVP da LPB da época 13/14. Recebemos Miguel Minhava, uma das personalidades mais ricas da história recente do basquetebol português.
A entrevista cedida por Minhava ocorreu no dia 17 de abril, na Padaria Portuguesa, próxima da estação do Oriente, num ambiente suave, à sombra de uma árvore que folhas deixava cair. A conversa durou 50 minutos e ocorreu sempre com grande fluidez.
Para si, o que é o basquetebol?
Bem, primeiro venho de uma terra que tem muito a ver com o basquetebol. Até digo na brincadeira que é a capital do basquetebol em Portugal (Barreiro). Para mim sempre teve ligado à minha vida porque o meu pai foi jogador. Desde que eu me lembro de mim, era treinador, e eu desde sempre comecei a acompanhá-lo, a acompanhar as equipas dele e daí até entrar aos cinco anos no “minibasquetebol”, porque não era possível entrar antes. Até aos dias de hoje, só um ano da minha vida é que não estive ligado de alguma forma ao basquete […] Então tiras o basquetebol da tua vida, como é que é a tua vida? […] Não vou dizer que é a minha vida, mas é uma parte gigantesca.
O Galitos carimbou a sua presença na primeira divisão há pouco tempo contra o Braga […] Quais são as suas expectativas para o conjunto barreirense?
O Galitos é um clube que me marcou muito. Eu cresci no Barreirense, mas na altura não estavam na primeira liga. É um clube que me diz muito, foi lá que eu fui MVP da liga, ajudei o clube na altura, a manter-se, e depois passou de uma equipa que jogava para se manter apenas, para uma equipa que começou a marcar presença nos Playoffs. Quando eu deixei a equipa, continuou um nível alto, e depois acabou por… pronto, também é difícil manter o nível… e acabou por descer.
Nesse primeiro ano, depois de eu ter saído, não conseguiram subir, mas agora subiu com todo o mérito. O Pedro é meu amigo de infância praticamente, portanto fico muito satisfeito pelo Pedro. Fico obviamente também muito satisfeito pelo Galitos. Tenho uma excelente relação com o Presidente, simplesmente achei que devia sair, não vale a pena aqui olhar para os motivos, mas nada fez com que eu deixasse de torcer pelo clube, ainda por cima estando um amigo meu como treinador.
Miguel abandonou o posto de treinador do Galitos em 2022 para ser o treinador sub-18 do Benfica.
Quais são as suas principais diferenças em treinar uma equipa, vamos dizer, de “homens feitos” para uma equipa de jovens ambiciosos que estão a querer chegar lá?
Eu tenho uma visão algo crítica daquilo que se faz de uma forma global na formação em Portugal. Acho que estamos a formar pouco. Há miúdos com qualidade, mas não estamos a formar nem com a qualidade, nem com a quantidade que, na minha opinião, deveríamos ter. Eu dou o exemplo do Andebol, que é uma modalidade que tem crescido muito. Dá-me a ideia que as outras modalidades têm tido muito mais capacidade de se regenerarem com novos talentos do que o basquetebol. A diferença é a questão da perspetiva. Obviamente, todos queremos ganhar, mas eu, a partir do momento em que voltei à formação, já tinha estado no Galitos a treinar vários anos de formação, é mudar um bocadinho o “chip”, porque eu no final também gosto de ganhar. O meu trabalho só está completo no dia em que eu vir os jogadores que estiveram comigo, na equipa sénior do Benfica, ou pelo menos na Liga.
Acredita que possa ser um problema de financiamento?
Não tanto. Aliás, a nível financeiro, desde que me lembro, é eventualmente a melhor altura para uma maior saúde financeira. Já foi mais problema do que é agora. Não quer dizer que não volta a ser. Temos que pensar bem para onde é que estamos a direcionar o dinheiro. Acho que o basquetebol não ter um escalão de sub-21 ou de sub-20, acho muito disparado. Porque muitos dos miúdos que eu vejo, que estão agora no escalão de sub-18, que é o último de formação, não têm ainda o nível preciso.
Acredita que a diferença entre o sub-18 e o sénior é muito grande?
É muito grande. Não nos podemos esquecer que esta geração, ou a grande parte da geração que está agora em sub-18, até em sub-16, apanhou uma pandemia. Esteve um ano ou dois fechado em casa. E tudo isso tem que se ter em conta. Portanto, tem que se tentar fazer aqui algo.
Qual é o impacto do Minhava Pai no Miguel Minhava?
É total. Se calhar o facto de eu crescer no Barreiro iria-me, mais cedo ou mais tarde, levar para o Basquetebol. Mas acabou por… Ele nunca me obrigou a nada. Eu é que quis, logo desde pequenino, acompanhar. Obviamente tem toda a influência e é alguém com quem eu sempre falei, depois dos jogos, depois dos treinos. Perguntava-lhe coisas de onde o via treinar. Porque é que eu fazia isto, porque é que eu fazia aquilo. Foi algo que acabou, por exemplo, na vertente do basquete, me puxar ainda mais, despertar a minha curiosidade. […] É um pai que sabe, tem conselhos para dar, que passou por coisas que eu também estou a passar e que eu passei na altura como jogador. Portanto, o impacto é grande. Cheguei a ouvir, para mim foi, eu conto isto muitas vezes, foi o melhor insulto que eu tive. Uma vez disseram-me “Não jogas nada, o teu pai é que jogava bem.” Virei-me para a bancada e disse “Pá, se é isso que tem para me dizer, pá, fico super satisfeito, não há problema nenhum.”.
Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Eu tive alguns, é difícil, eu vou-te dar dois, pronto. O primeiro foi o apuramento da Seleção Nacional para o Europeu 2007. Numa altura, e falavas há pouco da questão do financiamento, vivia-se com muitas dificuldades, nomeadamente a FPB. Na altura, não eram 24 equipas como agora, eram 16 equipas. Era muito mais complicado. Nós nesse apuramento tivemos todas as dificuldades e mais algumas, inclusive do logístico, ou seja, dificuldades para viajar. Nós, antes do segundo jogo do apuramento que era na Bósnia, uma semana antes andávamos a perguntar aos dirigentes: “Mas então,, quando é que vamos? A que horas vamos?”, e não sabiam sequer se a gente ia ter voo. […] Para mim foi algo especial. Para mim, claramente, esse é o momento.
Depois, também no meu primeiro título nacional sénior, no Benfica, quando o Benfica vinha num jejum de 14 anos. E nós, em 2008, 2009, conseguimos quebrar esse jejum. Foi também especial. Eu julgo que esse momento marca também o basquete nacional. Porque o Benfica, de certa forma, agarra uma espécie de hegemonia. Benfica voltou a ser o clube mais dominadorç.
Qual é o clube pelo qual tem mais carinho?
Olha, foram todos eles… Eu tive, nesse aspecto, eu tive muita sorte. Os quatro clubes que joguei em Portugal, todos eles foram especiais da sua maneira. Um clube muito especial para mim, o Belenenses, É um clube muito diferente, a relação com as pessoas é muito diferente, é muito próxima. Nós jogávamos ao fim de semana e depois não eram muitas as pessoas, mas tínhamos sempre gente a ver os treinos, falavam connosco, íamos ver os jogos da equipa de futebol e éramos super acarinhados, foi tudo de facto diferente. O Benfica é o clube, claramente, com maior expressão na minha carreira. Eu, cinco ou seis anos depois de ter saído do Benfica, e acho que já tinha deixado de jogar, chegaram-me a dizer: “Você joga no Benfica? Não amigo, já não jogo no Benfica há muitos anos” […] Vivi aquilo que é estar num clube grande.
Você esteve em balneários como jogador, e já esteve em balneários como treinador. Já foi o líder, e já foi o liderado. Para você, o que é ser o líder do balneário?
Foi uma coisa que me ajudou muito, nos anos, nos últimos anos da carreira, foi ter sido treinador, apesar de ser de miúdos, enquanto jogava. Dá-te logo uma perspetiva diferente, ou seja, de olhar. O Mário Palma dizia muito isso: “Um dia vocês vão perceber, que uma coisa é vocês estarem deste lado, outra coisa é estarem deste lado.” Mais para o final da carreira, já tens uma outra maturidade, comecei a querer perceber cada vez mais como é estar do outro lado, e por vezes, aquilo que tu começas a questionar aos treinadores, tem muito já a ver com esse desejo que tens. De um dia, poder estar do outro lado. Não trocaria a experiência, nunca de jogador, ou de treinador. Isto é um processo.
Qual foi o momento mais complicado?
Tive pena de no Galitos ter tido um contexto diferente. Foi de facto, um ano difícil. Eu tinha a noção que ia apanhar uma transição muito difícil. Do grupo de jogadores portugueses do Galitos, ficou só o André Calabote. Foi tudo embora. […] Permite-me, agora, estar a viver dois anos, no Benfica, também com muita coisa boa, trabalhar com miúdos, alguns deles, menos dois ou três, eu acho que podem atingir um nível muito elevado.
Imagina-se num jogo importante, na disputa por um campeonato. Como é que o Miguel Minhava, se prepararia para um jogo desse calibre?
Um jogo da época regular, ou fazer um jogo de play-off, nunca é igual. É um jogo decisivo, porque mesmo que seja no teu subconsciente, a importância do jogo está lá sempre. Agora a tua preparação, na minha opinião, aquilo que tu fazes habitualmente. Seja as refeições, seja o tempo de descanso.
Se chegares à altura decisiva e mudares as tuas rotinas de uma forma muito evidente, se calhar não estás a ajudar-te a ti próprio. […] Por exemplo, Fomos jogar ao Dragão e perdemos uma final 4-3 e chegámos lá 3-3. Aí sabes que é diferente e o teu subconsciente, por muito que queiras, sabe disso. Tu vais estar sempre sob uma pressão diferente, agora sendo que a tua cabeça está diferente. O resto, eu acho que não pode ser diferente. Deves ter as tuas rotinas, ou seja, o teu corpo tem que saber que vais chegar à hora do jogo e que teve uma preparação que lhe permitiu estar top.
Porque é que foi para a comunicação social?
Olha, na altura, eu tirei o curso de educação física que ficou de lado. Acabei o curso ainda estava a jogar. Eu sempre li jornais e sempre fui muito interessado. […] Senti que precisava de me ocupar. E então acabei por pensar no curso de comunicação social na Universidade Lusófona. […] Fazia a minha vida normal durante o dia. Nós acabávamos de treinar às 18 da tarde, tomava o meu banhinho e tinha aulas ali das 19 às 22, 19 às 23 . Que é um horário super passivo. Conforme fui tirando o curso, percebi que tinha feito a opção certa e foi por aí. Eu também sempre fui muito interessado. […] Acho que a comunicação social tem de fazer muito melhor.
Temos muitos portugueses lá fora com excelente qualidade. Nomeadamente Ruben Prey. Acredita que Prey pode chegar à NBA um dia?
Olha, eu não conheço muito bem o Ruben em termos pessoais. O Neemias sempre tive mais algum conhecimento. O Ruben Prey, aliás, ele tem ali um problema disciplinar até a meio do ano. Mas já se percebeu também para ele chegar àquele nível, é porque tem que ser algo. Não me acredito que um treinador da ACB dê minutos ao Ruben porque ele é português e que é grande.
[…] É ótimo o Neemias estar onde está! Ele vai ter um contrato. Desde logo isso foi um desejo muito grande que eu tive. Porque para mim, ficar com a vida dele resolvida em termos financeiros, ou seja, pode libertá-lo ainda mais, ou seja, vai ajudá-lo ainda mais a subir alguns graus.
É ótimo. Precisamos ter essas referências. Mas isso não nos pode tirar o foco de olharmos para o plano geral e de perceber que isto não chega. A minha bitola da formação não é aparecer um Neemias ou um Rubén. Tem que aparecer porque eles são referências. Como tu dizias, é que vão depois os miúdos olhar: “Ok quero ir para o basquete.” […] Eu lembro-me de ouvir: “O Algés é a referência do basquetebol”, porque tu olhavas para o Algés e pergunto-te, se calhar não havia muitos jogadores na liga formados no Algés, mas toda a gente que jogava no Algés sabia jogar. E para mim formação é isso.
“A América já não olha para o Neemias como o primeiro português na NBA, mas sim como um excelente jogador.”
O Neemias era o primeiro português, o Scalabrine era o “White Mamba”. Ele entrava e o pavilhão todo aplaudia, e eu a certa altura pensei quase que o Neemias era isso. Não é bem assim. O Neemias é um ótimo jogador de basquete. Tem todas as condições e mostrou isso na melhor equipa da liga. Tem condições para jogar um nível muito alto. Não vou dizer que vai ser um jogador All-Star, mas para ser um jogador muito consistente na liga.
Um Clint Capela?
Ótimo exemplo. Um jogador muito consistente na liga. Acho que um Gafford. Nessa linha. Isto estamos a falar já numa gama média alta, se calhar não chega para ser All Star, mas dá. […] Se não fosse em Boston, seria em outro lado. E acredito que para o próximo ano já não o vamos ver muito na G-League.
Previsões para ganhar o campeonato deste ano de NBA?
Eu até disse isto numa das edições do nosso podcast. Philladelphia, acho que estão muito próximos, mas acho que não chega. Acho que não chega. Miami eu acho que também retiro aquilo que fez. Difícil. É sempre uma equipa a ter em conta, sempre.
Quem tem LeBron e Anthony Davis não pode andar a fugir aos outros.
Algumas não chegam. Eu acho que não chegam. Agora no oeste, eu acho que está muito aberto. Acho que a Denver continua a ter aqui o principal caso. Um bocadinho. Mas lá está. Acho que está um bocadinho acima. Eu continuo desconfiado que os Clippers…agora há a questão do Kawhi, que dizem que ele não está a100%. Difícil. Mas se os Clippers, se o Kawhi conseguir recuperar e estiver a 100%, eu continuo muito desconfiado que os Clippers ainda vão surpreender muita gente.
Tem de descrever basquetebol numa frase. Toda a sua vida. Que frase seria?
Basquetebol não é tudo, mas é quase tudo.

