Miami Heat: passado recente, situação atual e futuro do franchise

Aviso: para os preguiçosos ou para quem não tenha interesse em ler sobre a história recente dos Miami Heat, podem passar logo para depois do último sub-título Situação Atual. Para a malta com mais pachorra, têm aqui semi-extensa explicação de algum do contexto que fez os Heat os Heat que hoje conhecemos.

Era 2010 e tinha acabado de cair a bomba que ia por todo o mundo desportivo a abanar: num mini-documentário feito pela ESPN denominado de ‘The Decision‘, LeBron James anunciava que iria levar os seus talentos da sua terra natal e equipa de infância, Cleveland Cavaliers, para a solarenga Florida, jogando nos Miami Heat. Mas ele não iria só pois, para além do já homem da casa e lenda do franchise Dwayne Wade, também o talentoso Chris Bosh dos Toronto Raptors se iria juntar para formar a que seria a ínfame ‘Big 3‘. Enormes coisas eram esperadas deste grande conjunto construído por Pat Riley e agora sob as ordens de Erik Spoelstra. O sucesso era inevitável, e assim o foi.

Apesar do tropeção inicial frente aos Dallas Mavericks de Dirk Nowitzki, seguiram-se 2 campeonatos em 2 anos.  Os ‘Big 3 Miami Heat’ estabeleceram-se como uma das melhores equipas da história. Principalmente durante a época 2012/13, em que bateram o recorde de vitórias do franchise e conseguiram ainda pelo meio um winning-streak de 27 jogos. Ficaram certamente na memória dos adeptos vários momentos, desde as memoráveis séries contra Indiana, o primeiro anel de LeBron James, a Final de Conferência frente a Boston ou o triplo de Ray Allen no Jogo 6. E mesmo apesar da derrota pesada por 4-1 na desforra dos Spurs nas Finals de 2014, o futuro parecia sorrir para a equipa da Florida.

Tanto LeBron James, Dwayne Wade como Chris Bosh deram opt-out dos seus respetivos contratos, mas não parecia ser razão de preocupação. Os últimos dois estavam dispostos a aceitar um salário mais baixo de forma a fortalecerem a equipa na free-agency de 2014 e darem o procurado max-contract à figura da equipa LeBron James. Falava-se então de Kyle Lowry ou até Carmelo Anthony para Miami, entre outros nomes como Luol Deng e Marcin Gortat. No draft a equipa fez tudo para agradar o King draftando então Shabazz Napier, escolha pessoal do próprio, para a posição de base que na altura era apenas preenchida por Norris Cole. Tudo apontava para que a Big 3 continuasse em Miami, mas foi aqui que a coisa deu para o torto…

Depois de Pat Riley tudo fazer para manter LeBron James, ele decidiu voltar para Cleveland. Isto quando todos os alvos, como Lowry ou Gortat, já se tinham comprometido com outras equipas e haviam rumores do interesse dos Rockets em Chris Bosh, deixando os Heat numa situação complicada. Mesmo com todas as adversidades, Pat Riley fez o que podia para manter a equipa minimamente competitiva. Assinou Bosh a um contrato de 5 anos e $118M e Wade a $31M por 2 anos. Seguiram-se Haslem, Chris Anderson, Chalmers, McRoberts e Danny Granger. Mesmo assim, não se seguiu uma época de sucesso.

Apesar de um início de época promissor, rapidamente a época virou negra. Desde lesões, a doenças e mais todos os motivos possíveis de ausência, Spoelstra acabou a época com 31 line-ups diferentes. McRoberts, Bosh e Nappier tiveram todos lesões que acabaram com as suas respetivas épocas, sendo que para Bosh não foi uma lesão qualquer mas sim um problema no pulmão que mais tarde voltaria para lhe assombrar a carreira. Já Wade falhou 20 jogos por uma série de problemas. O esperado 5 inicial acabou a época com apenas 24 minutos jogados. De facto, nada sorria para os Miami Heat, até que algo bom finalmente apareceu: Whiteside e Dragic.

No meio de tanto azar e má sorte, finalmente algo de bom acontecia em Miami. Ninguém previa que um total desconhecido da D-League, tendo já jogado na China e até no Líbano, se fosse tornar numa autêntica double-double machineHassan Whiteside acabou a época com médias por jogo de 16.8 pontos, 12.5 ressaltos e 3.2 abafos no mês de Abril. Mais tarde, já a 19 de Fevereiro, dia em que as trades iriam fechar, os Heat avançam com uma troca a três onde adquirem Goran Dragic e o seu irmão Zoran. Dragic acaba a provar o que já tinha provado na época transata, acabando com 16.6 pontos 5.3 assistências por jogo e mostrando fazer com Dwayne Wade uma dupla temível. Mesmo assim os Playoffs não foram alcançados.

A época 2015/16 arrancou então tentando tirar o máximo proveito do insucesso da época passada: os Heat escolheram no Draft na 10º pick o promissor Justise Winslow, de Duke. Um extremo versátil, competente no ataque e de excelência na defesa. Escolheram também na 40ª pick Josh Richardson, de Tenessee. Junto a Whiteside no interior, os Heat provaram ser um adversário difícil de ultrapassar.  Chris Bosh começou bem a época antes de, mais uma vez, se retirar dos campos antes All-Star. Foram encontrados coágulos de sangue no pulmão do mesmo e a época acabou para ele. Mesmo assim talento como Tyler Johnson, Joe Johnson e Gerald Green vieram oferecer alguma competitividade à equipa, tendo acabado em 3º na Conferência. Perderam mais tarde nas semi-finais de Conferência por 4-3 frente aos Raptors. Esta época foi um bom presságio do que estaria para vir…

Tal como foi a época 2015/16, todas as épocas que se seguiram mantiveram-se neste registo, algo que eu denomino de uma espécie de ‘limbo competitivo‘, ou ‘purgatório competitivo‘ . Ou seja, quando uma equipa nem é competitiva o suficiente para ser uma séria candidata ao título, nem é má suficiente para conseguir boas picks no Draft e construir um núcleo jovem que, com o desenvolvimento certo, dê garantias de um futuro-próximo de sucesso para o franchise. E como sabemos: talento atrai mais talento, mas uma equipa como os Heat também não têm talento suficiente para que super-estrelas queiram assinar pela equipa na free-agency, dificilmente conseguem então tornarem-se um sério candidato ao título. Esta indecisão deixa as equipas cair na irrelevância, pois não captam nem o entusiasmo de uma luta pelo campeonato nem o de uma equipa jovem e promissora.

Mesmo assim, em termos de show a época seguinte foi cheia de entusiasmo, apesar de desportivamente terem ficado pelo 9º lugar. Tudo começou com o problema recorrente a voltar novamente: mais coágulos de sangue encontrados nos pulmões de Chris Bosh. Uma doença que põe a carreira dele em sérios riscos, iria-se ausentar mais uma vez para tratamento. Deu-se também a perda de Wade para os Bulls por questões contratuais e chatices com o front office. Pat Riley decidiu então dar um max contract a Whiteside e contratou também jogadores interessantes como Dion Waiters, Wayne Ellington, James Johnson e Okaro White. Também renovaram com Tyler Johnson num polémico contrato em que os Heat igualaram a proposta dos Nets. Esta época acabou por ser uma autêntica montanha russa de emoções, em que apesar da equipa começar com um mísero recorde de 11-30, continuaram a lutar e acabaram a época 42-42 numa fantástica segunda metade da regular season. Dion Waiters foi a autêntica cara da equipa nestas espetaculares performances com highlights que nunca ninguém esquecerá tão cedo. Apesar da classificação final não ser a pretendida nem tudo era mau pois, desta forma, os Heat poderiam ir buscar mais um valioso prospect ao Draft de 2017.

Os Heat escolheram então Bam Adebayo, power-foward de Kentucky. Apesar de ainda crú tecnicamente, o jovem de 19 anos apresentava capacidades físicas muito boas e pouco próprias de um jogador interior. A par de Adebayo, os Heat contrataram também o free-agent Kelly Olynik num contrato de 4 anos e ambos James Johnson e Dion Waiters a contratos de longa duração. Também Richardson mereceu uma extensão de contrato e um salário aumentado. Anularam também o contrato de Chris Bosh alegando incapacidade para jogar, deixando de contar para o cap space. Tal como esperado, eles foram nem maus o suficiente para falharem os Playoffs, nem bons o suficiente para estarem na luta pelo Larry O’Brien. A época de Waiters acabou em Dezembro. Olynik ainda se provou um jogador útil e versátil ofensivamente. Bam Adebayo mostrou algumas coisas boas, principalmente defensivamente. O mesmo se aplica a Winslow, que embora tenha melhorado o lançamento de três pontos, o jogo atacante continua a deixar bastante a desejar. Dragic continuou ao seu nível e chegou até a All-star. Ellington foi letal de três. Richardson e Tyler são jovens de valor. Whiteside lá se chateou com Spoelstra e diz-se ter a porta da saída aberta. Dito isto tudo, o resultado final? Um desinteressante 6° lugar e uma prematura eliminação dos Playoffs por 4-1, frente aos 76ers, logo na 1ª ronda. Mais uma época, mais um ano sem qualquer valor futuro.

Volta-se a pensar no tal ‘limbo‘, põe-se então a seguinte questão: manter-se-á a política e ambição de continuar o mais competitivo possível ou irá Pat Riley repensar o projeto?

 

Situação atual

Depois de abordado o contexto e passado recente que levou os Heat aos dias de hoje, vamos então analisar vários aspectos da situação atual de Miami.

No que toca a cap space, os Heat têm atualmente 11 jogadores sob contrato prefazendo um total de $121M. Um valor bem acima dos projetados $101M para o salary cap da época que se avizinha. Dito isto, verão-se obrigados a usar exceções, contratos mínimos, Bird rights ou até trocas para preencherem o plantel. O pior? O cap space provavelmente continuará lá para cima até 2020. Contratos como o de Tyler Johnson, que apesar de ser um jovem com valor é consensual que nunca irá valer os $20M anuais que os Heat irão pagar por ele. Ou como o de James Johnson que, tal como Tyler, é um jogador de valor mas que não vale os $15M anuais. Muito menos tendo em conta a situação atual da equipa e, como todos sabemos, JJ já não é propriamente jovem e mais novo não ficará. Já sobre Hassan Whiteside também não é provável que chegue às expetativas que tinha quando lhe foi proposto um max contract em 2016, muito menos depois do recente drama ao se ter chateado com a equipa técnica e ter ido fazer “queixinhas” à comunicação social.

Para este ano, independentemente da classificação na conferência, os Heat não terão quaisquer draft picks. Tanto a de 1ª ronda como a de 2ª ronda foram trocadas há uns anos nas trocas por Dragic e Anderson, respetivamente. Para os próximos anos, excepto em 2021, os Heat têm uma pick de 1ª ronda. Já de 2ª ronda os Heat têm apenas nos anos de 2022 e depois de 2024 para a frente.

No que toca a recursos humanos, os Heat encontram-se já há vários anos numa posição muito sólida. O front office, com Pat Riley a Presidente e Andy Elisburg a GM, e a equipa técnica com Erik Spoeltra a Head Coach, encontram-se certamente em boas mãos. Ambos são de provas dadas. Pat Riley conseguiu 3 campeonatos nos últimos 12 anos, feito apenas superado pelos atuais bi-campeões Golden State Warrios. Erik Spoelstra esteve em todos estes rings, um a treinador adjunto e dois a treinador principal.

A questão que agora se põe: devem os Heat continuar neste registo ambicioso de continuarem sempre o mais competitivos possível ou devem ceder ao tanking? Tanking não é do agrado de ninguém, mas muitas vezes é essencial para uma equipa começar o processo de rebuilding com jovens jogadores que irão oferecer sustentabilidade ao futuro da equipa. Aliás, importante também dizer que todo o sistema atual da NBA promove o ínfame tanking ao não recompensar em nada equipas de meia tabela. Uma equipa de meia tabela que não tenha um roster significativamente jovem pouco espaço tem por onde melhorar de forma substancial. Tal como já mencionei anteriormente, atualmente os Heat estão exatamente neste registo, num ‘limbo competitivo‘ onde nem são maus o suficiente para ter picks altas no draft nem são bons o suficiente para serem uns sérios candidatos ao título. Muito menos quando têm o cap space a rebenter pelas costuras até ao início da próxima década. Fim ao cabo, simplificando bastante, há três cenários possíveis:

  • Começam já o processo de rebuilding esta época trocando os seus ativos mais valiosos enquanto ainda estão mais novos e têm vários anos de duração no contrato, como Dragic, Whiteside, Olynik, James Johnson, Dion, etc, por jogadores jovens e/ou por picks já para este ano;
  • Esperam até os contratos atuais acabarem e aí começam o processo de rebuilding. De notar que contratos como os de Dragic, Tyler Johnson e Whiteside expiram todos em 2020. Os $65M de cap space libertados por estes três ativos aliados a outras picks ou jogadores obtidos através de trocas podem lançar de forma eficaz o franchise para o rebuilding;
  • Ou continuam com a mentalidade atual tentando sempre o maior número de vitórias possível arriscando-se a cair no tal limbo e ficarem-se durante vários anos por lugares de meia tabela e saídas prematuras nas primeiras rondas dos Playoffs;

Mas conhecendo Pat Riley, sabemos que os Heat provavelmente seguirão pelo último caminho. Pat Riley, que a par de um excelente Presidente também se provou um dos maiores treinadores da história da modalidade, é um homem extremamente ambicioso e com uma veia vencedora indomável. Isto é, sem dúvida, uma qualidade, mas torna-o incapaz de planear a longo prazo e dar o braço a torcer ao ceder ao rebuilding que o seu franchise tanto parece precisar. Como se isto não chegasse, a sua anual conferência de fim de época deixa pouca margem para dúvidas.

Questionado sobre se iria trocar algum dos seus jogadores por picks este ano, Pat Riley respondeu que acredita nos vários jogadores jovens que tem no plantel e que não é grande fã de draft picks:

Sendo sincero com vocês, sabem que não sou grande fã de draft picks. Quando os Heat estiveram em baixo fui buscar Caron Butler na 10ª, Dwayne Wade na 5ª e Michael Beasley na 2ª escolha. Agora fomos buscar Winslow e Adebayo. E ainda temos outros jogadores novos. Tu não queres ter demasiados jogadores novos. Draft picks são valiosas sim, mas também são valiosas para trocar por jogadores mais velhos que podem oferecer muito ao plantel.  Trocámos duas picks pelo Dragic, (…) se for para ‘draftar’ jogadores na 14ª, 15ª, 16ª posição prefiro ter jogadores como o Dragic.

É um facto que os Heat já tiveram muito sucesso em transformar jogadores undrafted em jogadores de rotação como Haslem, Tyler e McGruder. Mas mantêm-se as dúvidas sobre se este será o melhor caminho a seguir.

Em Julho também cedeu declarações ao Miami Herald e, mais uma vez, deu a ideia que não seguirá os passos de mais de uma mão cheia de equipas desde que a era dos Warriors começou. O rebuilding parece não entrar mesmo nos planos:

Desde 2010, temos sido uma equipa que perseguiu sempre algo maior e melhor. Nunca deves fazer uma troca pela razão de simplesmente fazeres uma troca, (…) deves sempre procurar melhorar a equipa de uma ou outra forma. Uma vez que construíste a fundação, a partir daí deves sempre tentar melhorar.

Tudo aponta para que, de facto, os Heat continuem no caminho que têm seguido desde a saída de LeBron em 2014. Pat Riley não mostra nem qualquer indício de ponderar sequer mudar o paradigma do franchise de Miami. Felizmente, ainda tem tempo pois, com Durant, Curry, Klay e Green ainda por chegarem sequer aos 31 anos, o domínio dos Warriors ainda vai perdurar. Mesmo assim, Pat Riley devia ponderar seguir projetos que tão bem têm funcionado. Utah perdeu um All-Star em Hayward mas rapidamente ganhou outro em Mitchell. Os Celtics, a par do seu duo Irving e Hayward, têm jovens como Tatum e Rozier de um valor altíssimo e que prometem arrasar a Liga daqui a uns anos. 76ers, embora um caso extremo no que toca a tanking, têm agora das mais temíveis equipas da Liga. Miami tem o dinheiro, tem a história, tem a equipa técnica e tem o sítio ideal para começar um eficaz e bem sucedido processo de rebuilding, só falta Pat dar o braço a torcer.

Mas também há outro fator: o Padrinho da NBA, alcunha que lhe foi tão bem dada, já mostrou perceber a alma do negócio como muito poucos outros percebem. Como treinador foi 5x Campeão da NBA e por 3x nomeado para Coach of the Year. Como executivo construiu um império de um franchise que existe há apenas 30 anos. Fez dos Miami Heat uma família e um franchise imponente e respeitável com uma fome de ganhar como há poucos na liga.

Se há um grupo restrito de pessoas na NBA cujas provas dadas não deixam margens para dúvidas, certamente que nesse grupo irá estar incluído Pat Riley.

Tal como na obra de Mario Puzo, também aqui ninguém se atreve a questionar o Padrinho.

 

 

 

Afonso Mendonça

Desde cedo descobriu a sua paixão pela modalidade, começando a jogar basquetebol aos 9 anos para só parar 9 anos depois. Verdade seja dita, nunca foi muito bom. Tenta então agora compensar a sua carreira falhada a meter a bola no cesto ao meter artigos na net. Não é bem a mesma coisa mas promete deixar nas teclas do computador o mesmo empenho que outrora deixou em campo.

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